
Tu podes porque não tens filhos. Se tivesses filhos, saberias o que é difícil." Sobre a dificuldade de ter filhos, Angélica Luís podia escrever um tratado. Mas, quando alguém lhe cobra mais disponibilidade para o trabalho, quando algum colega se queixa das dificuldades em gerir uma família, Angélica desvia a conversa, engole em seco, reserva a sua dor e prefere não dizer nada.
A vida desta formadora profissional de 33 anos gira, silenciosamente, em torno do desejo de ser mãe. Mas, para 500 mil casais no País, desejar não chega. Engravidar é uma batalha. Gasta-lhes as energias, o dinheiro, o tempo e os sonhos. Muda-lhes a geografia das relações sociais, familiares, sexuais e de trabalho. Altera-lhes o mundo e a forma de o verem. Torna-se a medida de todas as coisas. Angélica anda assim há três anos, a querer ter filhos e, em vez deles, a descobrir doenças. Dela, do marido… do casal. Para eles, uma gravidez só é possível com a ajuda de técnicas e tratamentos que cabem no nome de Procriação Medicamente Assistida (PMA).
Portugal faz tratamentos de PMA desde o final dos anos 80, durante décadas sem que uma lei lhes desse forma e limites. Até 2006. Mas o País não parou à espera de ter uma lei. Houve novas descobertas e criaram-se centros de PMA. Nasceram "seguramente mais de 20 mil crianças", segundo as contas de Mário Sousa, geneticista e um dos precursores do País. Sete dos actuais centros são públicos. Se no privado um tratamento chega facilmente aos 5 mil euros, aqui só se pagam taxas moderadoras. Poupa-se dinheiro, mas gasta-se tempo.
Santa Maria e Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, são os únicos para todo o Sul do País e a espera para um tratamento chega aos dois anos. No Porto, onde há mais oferta, ronda os seis, oito meses. Uma eternidade para os casais inférteis. Para eles, o tempo corre num compasso mais acelerado. Os dias não têm 24 horas, os meses 30 dias ou os anos quatro estações. Eles não têm tempo para passear pelo tempo. A partir dos 38 anos a taxa de sucesso desce e uma mulher deixa de ser aceite num centro público. Com a demora para cada consulta, cada exame e cada tratamento, aos 35 já começa a fazer contas de cabeça.
No ano passado, o Governo assumiu pela primeira vez que o que existe não chega. E anunciou um aumento dos apoios, prometendo mais 18 milhões de euros para financiar tratamentos no privado. Como as medidas do Governo também têm listas de espera, um ano passou e os casais continuam a aguardar que esses milhões lhes cheguem.
As autoridades de Saúde andam a arrumar a casa e a criar os alicerces, legais e reais, desta nova rede organizada de consultas e tratamentos. Alguns centros foram obrigados a fazer obras para cumprir parâmetros de qualidade. Com as obras, pararam-se consultas, com consultas paradas, aumentaram as listas de espera.
Quando tudo estiver criado, haverá mais quatro centros – em Coimbra, Cova da Beira (Covilhã), Garcia de Orta (Almada) e Faro. E mais seis consultas especializadas nos hospitais. Todos juntos, os 11 centros de PMA públicos terão de atender pelo menos 50% dos casais. Os outros serão encaminhados para o privado, com o Estado a pagar uma parte dos tratamentos.
Para Samanta Esteves, estes apoios já virão tarde. Chegou aos 39, ano derradeiro de uma década de tratamentos. Dez anos a gerir a espera, a esperança, a decepção. Saltou de serviço em serviço, repetiu exames, fez três tratamentos. O último foi em Setembro. Sem sucesso. Ainda não fez o luto da ideia de ser mãe. Podia tentar no privado, mas não consegue. "Já gastei nove mil euros. Não tenho dinheiro para mais... E não vou fazer loucuras de pedir empréstimos ou hipotecar a casa. Há pessoas que o fazem. Mas é muito triste saber que nunca vou ter filhos... Tento acalmar-me, pensar que a vida continua. Que posso brincar com os outros bebés."
Angélica vai para o terceiro tratamento, o último possível num centro público. É a prova de fogo. Às vezes, revolta-se – porque é que os outros conseguem e eu não? E as pessoas a perguntar para quando uma criança, e os sogros a rezar, e eles a tentarem. "Tenho algum conforto na ideia de que estou a fazer tudo o que posso. Também já demos entrada no processo de adopção." Pediram uma criança até aos três anos. Mas no Norte, a lista de espera para adoptar até esta idade é de seis anos.
"A criança que nós queremos não nasceu e não vai nascer nos próximos anos." Mas Angélica reconforta-se, está a tentar tudo. "Sinto que lancei todos os dados, algo hei-de conseguir." Conseguirá aguentar a dureza de mais um tratamento. Na esperança de, um dia, poder dizer "meu filho".
PERGUNTAS E RESPOSTAS
- Quais os tratamentos de procriação medicamente assistida?
- Os nomes são complicados, mas bem conhecidos dos casais. Fecundação in Vitro (FIV), Inseminação Intra-Uterina (IIU) ou Microinjecção Intracitoplasmática (ICSI) são alguns deles. Mas a lista é extensa e depende da causa da infertilidade.
- O que é a infertilidade e como um casal a pode detectar?
- A infertilidade resulta de uma disfunção nos órgãos reprodutores, masculinos, femininos ou de ambos. Um casal é infértil quando não alcança a gravidez desejada ao fim de um ano de vida sexual contínua sem métodos contraceptivos.
- Pode prevenir-se a infertilidade no homem e na mulher?
- O geneticista Mário Sousa diz que quase metade dos casos podem ser prevenidos. O que passa por evitar o consumo de tabaco, álcool e drogas, reduzir o número de parceiros e aumentando a idade da primeira relação sexual.
- O que é um banco de gâmetas? Existe algum no País?
- É um banco onde se armazena espermatozóides e ovócitos para tratamento. Mário de Sousa, um dos melhores especialistas, tinha um projecto, mas o ex-ministro Correia de Campos inviabilizou a ideia. A DGS está a "consultar" especialistas.
- Os 26 centros existentes têm todos as mesmas condições?
- Só este ano foram criados requisitos de qualidade. O Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida ainda está a licenciar os centros. O presidente, Eurico Reis, diz ter recebido apenas três pedidos, todos do sector privado.
CASOS
ANGÉLICA LUÍS
Angélica Luís tem 33 anos e vive no Porto. Há três anos que tenta com o marido engravidar. Já fez dois tratamentos, sem sucesso. Vai agora tentar o terceiro no Hospital de Santo António, no Porto.
SAMANTHA ESTEVES
Há dez anos que Samanta Esteves tenta engravidar. O tercLeiro tratamento emSanta Maria (Lisboa) não resultou. Aos 39 anos, estão esgotadas as possibilidades para o casal tentar ter filhos no público.
OS 26 CENTROS DE REPRODUÇÃO
- Hospital Senhora da Oliveira, Guimarães
- Hospital de São João, Porto
- Hospital de Santo António, Porto
- Maternidade Júlio Dinis, Porto
- Maternidade Bissaya Barreto, Coimbra
- Maternidade Alfredo da Costa, Lisboa
- Clínica Obstétrica e Ginecológica de Espinho – COGE Rua da Idanha, Espinho
- Clínica de Genética Prof. Doutor Alberto Barros, Av. do Bessa, Porto
- Centro de Estudos e Tratamento da Infertilidade – CETI, Av. da Boavista, Porto
- Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, Gaia
- Hospitais da Universidade de Coimbra, Coimbra
- Hospital de Santa Maria, Lisboa
- Centro de Medicina de Reprodução – FERTICARE, Av. da Liberdade, Braga
- Centro de Estudos de Infertilidade e Esterilidade, R. Dom Manuel II, Porto.
- FERTICENTRO, Urbanização Panorama, Monte Formoso, Coimbra.
- Espaço Fertilidade, Rua do Brasil, Coimbra
- AVA CLINIC, Praça D. Pedro IV, Lisboa
- Centro CLIFER, Rua Padre Américo, Lisboa
- IMOCLINICA, Campo Grande, Lisboa
- Clínica Bom Jesus, Av. Príncipe Alberto do Monáco, Ponta Delgada
- Clínica CLINDIGO, Rua Luciano Cordeiro, Lisboa
- Centro CEMEARE, Av. das Forças Armadas, Lisboa
- British Hospital XXI, Rua Tomás da Fonseca, Torres de Lisboa.
- Centro de Medicina da Reprodução de Cascais, Al. Combatentes da Grande Guerra, Cascais
- IVI Lisboa, Av. Infante D. Henrique, Lisboa
- CLINIMER R. Dr. Manuel Campos Pinheiro, S. Martinho do Bispo
PREÇOS
MEDICAMENTOS
Comparticipados a 37%, os medicamentos chegam a custar mil euros por cada ciclo (injecções que estimulam a produção de óvulos, por exemplo).
TRATAMENTOS
No privado podem custar mais de cinco mil euros, como a Microfertilização (ICSI) com doação de ovócitos, ou quase quatro mil euros, como a Fertilização in Vitro (IVF). Muitas vezes, é necessário mais do que uma tentativa.
MÃE DE DUAS GÉMEAS AO FIM DE CINCO ANOS
"Ninguém está à espera de ser infértil quando decide ter um filho." E Cláudia Vieira, de 33 anos, também não esperava receber esse diagnóstico quando, em 2003, decidiu que era a altura de ser mãe. Cincoanose outrastantas microinjecções depois, ficou grávida. As bebés nasceram em Junho. É nelas que concentra esforços. Nelas e na Associação Portuguesa de Fertilidade (APF), que ajudou a criar em 2006. "Não é fácil encontrar apoio. As pessoas isolam-se, a doença tem uma carga muito estigmatizante."
Quando a palavra infertilidade passou a ser parte da sua vida, foi nos fóruns de discussão na internet que encontrou informação e pessoas para a partilhar. Desses fóruns surgiu a ideia de criar uma associação.Jámãe, Cláudia continua a ser a presidente. "As dificuldadessãotantas quedeixammarcas muito profundas. Uma gravidez não nos faz desligar. A associação é também uma filha." A APF vai lembrando que falta muito para que a infertilidade seja uma doença tratada como todas as outras. Faltam seguros, falta aumentar as comparticipações de medicamentos, falta estender a promessa de tratamentos a mais ciclos no privado.
"DINHEIRO NÃO PODE CONDICIONAR O ACESSO" (Francisco George, Director-geral da Saúde)
Correio da Manhã – Como vai funcionar a nova rede?
Francisco George – Começa nos médicos de família, que referenciam os casais para as 20 consultas de fertilidade nos hospitais. Se não resultarem, passam para os centros de PMA. Haverá uma torre de controlo na Direcção-Geral da Saúde que, através de um sistema informático, gere esta referenciação. Pelo menos 50% dos tratamentos terão de ser feitos no público.
– Por que razão as autoridades não obrigam as seguradoras a incluir também os tratamentos de infertilidade?
– Ao fazer isso, estaríamos a potenciar uma expansão dos centros privados e a PMA poderia acabar como a hemodiálise. Os rendimentos não podem condicionar o acesso, que é o que acontece hoje. Porque os casais de menos rendimentos devem ter um acesso igual aos de grandes rendimentos, a questão dos seguros é secundária. Optámos por desenvolver os centros públicos.
– Por isso, os 18 milhões prometidos aos casais ainda não avançaram.
– O primeiro-ministro nunca disse que iam ser dados aos casais. Há todo um processo de organização que está a ser feito e não pode surgir de um dia para o outro.
NOTAS
PIONEIROS: PRIMEIRA CRIANÇA
Louise Brown foi a primeira criança fruto de uma técnica de procriação medicamente assistida. Nasceu a 25 de Julho de 1978, em Inglaterra, há três décadas.
PREVALÊNCIA: NÚMERO DE CASAIS CRESCE
Vinte por centro é a prevalência dos casais com problemas de infertilidade. Em 50 anos, passaram de 10% da população para 20%.
LISBOA: CARLOS NASCE EM 1986
A 1 de Março de 1986 nasceu o Carlos Miguel no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, fruto de uma fertilização in vitro. Foi o primeiro bebé português a ser concebido com a ajuda da Medicina.
OBJECTIVO: MAIS TRATAMENTOS
2500 é o número de ciclos (tratamentos) que se fazem por ano no País. O objectivo do Governo é passar para os 6250.
GRAVIDEZ: TAXAS DE SUCESSO
Em média, a taxa de sucesso de um casal conseguir uma gravidez com os tratamentos por PMA ronda os 30%. Sobe para 80% depois de três tentativas, mas desce com a idade.
DOENÇA: UM PROBLEMA DO CASAL
50 por cento dos problemas de fertilidade são do homem. Antes vista como um problema da mulher, é hoje uma doença do casal.
PRIVADO: ESTADO VAI PAGAR
O Ministério da Saúde conta começar a pagar para o ano o acompanhamento dos casais no privado: serão pagos a 100% os tratamentos de primeira linha e o primeiro ciclo de segunda linha.
NASCIMENTOS: BEBÉS POR PMA
700 a 900 crianças nascem todos os anos por PMA. Representam um por cento dos nascimentos, mas deverão passar a ser 3%.